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Letras maiores do que as Estrelas


Amarras redentoras

Eu me acabo quando não trabalho, o trabalho me coloca nos trilhos. É a única coisa que me põe sério, a única coisa que eu tenho que fazer bem na vida. Sem ele, eu me torno um louco sem referências. Sem trabalho, eu não tenho hora pra comer e acabo não comendo; sem trabalho, eu não tenho limites em bebidas e acabo perdendo o eixo; sem trabalho, não há responsabilidade; sem trabalho corro riscos, de vida e de morte.

 

Trabalhar é péssimo pelo que é o trabalho, mas é justamente esse péssimo é que me assegura a vida, sou assegurado pelos meus compromissos, sou assegurado pela ocupação do tempo. Isso me salva da morte. Um homem sem companhias, sem receptores, sem rumo e sem planejamentos futuros, o ócio fatalmente o matará, o aniquilará. Assim, quando trabalho, tenho horas, durmo na hora, como na hora, cumpro horários e recorro a prazos.

 

Não estou fazendo ou criando a apologia do trabalho e fazendo reiterar a máxima de que o trabalho dignifica o homem. Nada disso. Eu quero que a ótica capitalista, os empresários e a logística de mercado se danem. Não estou preocupado com “o mundo do trabalho”, estou preocupado comigo. Estou dizendo que minha liberdade sempre se traduz por loucura e que se, para a maioria das pessoas, o trabalho é um fardo, para mim é uma questão de qualidade de vida.

 

Eu me acabo sozinho e sem nada pra fazer. Esse recesso de julho me preocupou severamente. Vi fotos desse período em que meus lábios estavam arroxeados e que meus olhos estavam inchados, eu parecia mais magro e realmente estava e meu corpo doía. Mas bastou o retorno ao trabalho para que minha pele melhorasse, para que eu recobrasse os sentidos, para que arroseassem os meus lábios e minhas têmporas e supercílios se tornassem serenos. O olhar amadurecido; as decisões, ponderadas. Para um homem padrão, isso soa absurdo. Afinal, como pode um jornada de nove horas diárias de segunda a sexta fazer com que um homem engorde e tenha mais apetite sexual?

 

Na verdade, o excesso de liberdade me faz querer experimentar a morte. Na verdade, eu preciso de freios. Eu precisaria sim de uma coleira, talvez de um grande amor e de boas amizades, mas o meu egoísmo e egocentrismo acabam por me carcomer nos tempos de ócio, por não sobrar nada, e até o meu corpo até dói, verdade. Dói a cabeça, doem as pernas, dói o estômago e ainda outras partes. O círculo de gentes realmente me faz falta, mas agora fico refém de meu próprio trabalho para ter uma qualidade de vida, ele me ajusta. Briguei por meus ideais e agora percebo que eles estão me matando, afirmei duramente a minha liberdade e agora percebo que somente sendo prisioneiro de algo, de alguma coisa ou de alguém é que se vive. A vida depende das amarras a que tenho que me submeter. Submit!



Escrito por William Lima às 12h27
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Dois mundos

Vivo em dois mundos que se subdividem como em espelhos sobrepostos em múltiplas imagens até o infinito. A profissão que carrego gera um eu; o físico que porto, outro. Fora de qualquer lugar sou outro, assim não me reconhecem fazendo tal ou tal coisa. Soa como uma traição, vivo traindo a minha própria imagem, conforme o local. Os traídos se sentem absortos, tudo porque nunca imaginam uma prática tão estranha a esse que ora me apresento e aos que me apresentam nunca imaginam que também ali há representação. Um sábio dirá: “eis aí um homem na eterna busca de si mesmo”. Depois da fala desse sábio eu começo a rir, mas quem é esse sábio? Minha autocrítica. O sábio dirá também para que eu ria: “chegue, pois, de afetações!” Dirá mais e rirei mais: “freie essa necessidade tola de conhecer a ti mesmo, o mundo é apenas o mesmo de sempre, é esse aí, está vendo?”

 

Depois de rir eu acabo me acostumando com esse tal de mestre dos magos, um velho com cara de sábio, mas ao mesmo tempo de idiota. “O que você é no trabalho realmente não é o que você é no boteco, meu filho”. Na verdade, falo de dois mundos que se explodem em infinitas partículas e de um irreversível estado anterior. Ocorre que a prática de quem vive e não apenas como espectador é dificílima, não é fácil interpretar com sangue os vários egos e sair impune. É tudo muito rápido, às vezes um pode se sobrepor a outro sem que eu perceba e gere um certo arroubo nos espectadores, mas, de todo, rotulável por eles. Os rótulos prejudicam os mundos que de tão diferentes falam outras línguas e esperam por outras estrelas e por outros milagres. O milagre não é o mundo único, mas a compreensão de cada mundo com o seu mundo. Compreendam-me, se você se despede de mim, aquela despedida foi a última, não que eu esteja me referindo à famosa comparação do rio e do homem de Heráclito, mas que eu mudo porque por dentro eu já sou outro, independente do rio.

 

Já existe na totalidade do ser uma duplicidade de valores e vetores. O sábio novamente intervém: “meu filho, acalme, viva a metafísica sem vida para além ou vida para amanhã, viva a vida a cada dia e não se sobressalte” Até que, por fim, eu mando o tal desse sábio tomar no cu, aí então ele vai embora e eu continuo. Independente da vida a cada dia, existe um duplo vetor. Toda traição é latente. Jaz em mim a mais pura traição, tudo porque o rio é muito aparente e eu muito obscuro. A complexidade interior é insuperável ao rio. É mais fácil entender que o homem não pode banhar-se nem sequer uma vez no rio, porque ele está em constante mutação e que suas ações são puramente representativas e que o fingimento qualificado é infinito.

 

Meus dois mundos são múltiplos. Não pensaste tu que sou aquele homem de quando apertei a tua mão, não? Na verdade, nem quando trabalhei ou me diverti eu estava sendo eu mesmo; na verdade ali já havia uma tergiversação!



Escrito por William Lima às 12h23
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Problemas de identidade

É dificílimo compreender a minha relação com o outro, é dificílimo entender o que o outro quer de mim e o que esse outro pensa a meu respeito. Paranóias inúteis para um sábio, afinal não necessitaria saber disso, necessito apenas viver. Ocorre que em certos momentos não é possível apenas viver ao lado desse outro, é necessário saber a teoria. Infelizmente. Uma teoria mutante, uma teoria metafísica e, por isso mesmo, para não ser compreendida agora, mas bem depois, quando as cãs alcançarem os parcos e prodigiosos fios capilares ainda remanescentes.

 

Gostaria de interpretar o outro na crua relação comigo, para então compreender, de fora, um pouco mais de mim, já que do outro nada conheço, prova disso é que esse outro sempre me surpreende, sempre o flagro em mentiras ou narrativas fantásticas, sempre me assusta em atitudes recatadas, sempre me persegue e, ao mesmo tempo, me ama, sempre me quer e, ao mesmo tempo, disputa comigo o cetro de um reino dourado. Não te conheço e por isso me conheço menos ainda. Afinal, sou o bom, o mau ou o feio; sou o louco, o sábio ou o palhaço; ou serei eu um depravado, ou apenas um miserável, vez que o depravado ainda está acima de um miserável? Quero saber de ti quem sou, mas não no campo dos clichês, não quero uma definição geral, quero uma definição particular para o particular que sei e sou.

 

Primeiro, coisas que não sou e me desagradariam ser. Não sou desonesto e minto pouco a meu respeito. Não sou ignorante de minhas obras e de meus trabalhos nem arrogante quanto a isso. Não sou os prazeres alheios nem a pessoa que se coincide consigo mesma o tempo inteiro. Quando querem me pegar, quando querem me definir eu mudo, mudo porque os dias amanhecem com disposições diferentes e com pessoas e animais diferentes, os dias nascem com sepultamentos à espera e maternidades recentes. O clima é bem diverso, as dores e os prazeres mais diversos ainda, além de serem dúbios e dicotômicos.

 

A teoria do outro é mutante assim como sou mutante, mas a mutação é regular, precisa e teórica. Decifra-me ou te devoro. É possível delimitar-nos em constante mutação? Qual será a teoria? Tento o recurso de todos os outros e todos os outros me compreendem conforme a vida que têm e não conforme os apuros e gozos que vivo.

 

Enfim, gostaria de ser tido como homem belo, de uma beleza plena, burilada, artesanal, manualmente esculpido, com qualidades que fossem convenientes a mim e que fossem convenientes a homens e a mulheres belas também. Será que o feio dos outros não estará me enfeiando? Será que os feios me sujam com suas patas? Na verdade, quero me reconhecer em você, mas quero ter a certeza de que tanto eu quanto você somos belos o suficiente para escaparmos das teorias e dos clichês de um miserável qualquer.



Escrito por William Lima às 17h53
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Data de partida, amizades, uma vagabunda e os miseráveis de hoje

As seqüelas produziram em mim nesse exato 23 de junho de 2008 o meu pior momento. Ocorre que o pressentimento me reaviva dizendo a mim sobre a data de partida. Parto agora para um momento melhor. Na verdade, pressinto que a depressão – a vala em que se está abaixo do nível padrão do solo – me assegura uma elevação rochosa em que o topo é estrelar e de múltiplos e horrendos gáudios. Basta apenas contar os dias a partir de hoje, isto é, garanto-me em 12 dias ou menos. Logo estarei colocado onde devo e onde mereço.

 

O sumiço é sempre obra de quem não tem tempo de estar nem consigo mesmo e nem com os outros, ou porque não se agüenta ou porque não agüenta fazer força e remar contra a corrente. As coisas boas da vida estão supra-rio, terá que se nadar contra a corrente a duras penas. Certamente, hoje, deixo a correnteza fazer de mim o permanente ausente de amizades antigas e referenciais. Sempre serão referências boas, mas no âmbito das lembranças. O que tal amizade diria ou faria em tal ou tal situação? Daí, executo o programa. Mas pode saber que remarei sim, é mentira dizer que desaparecerei, necessito apenas de tempo para me recuperar do veneno das gentes incultas.

 

Existe uma infinita diferença em mim, por muito tempo eu neguei, mas hoje eu percebo que ser superior é também aceitar tal condição como sacerdócio, há que se ter em mente o nosso próprio poder e a nossa própria natureza.

 

Mas, mudando de assunto, eu conheci uma mulher chamada Liliane. Uma mulher gorda, habitante de um aglomerado, assalariada, com trejeitos de vagabunda. Ela teve a ousadia de me provocar, de mexer com meu brio, mas ela, infelizmente, não tem o símbolo para representar suas vontades e acaba caindo em atitudes extremamente vulgares. Ela queria se casar comigo, queria que eu comprasse as alianças, queria me fazer de otário. Aí então eu tomei a decisão correta: pus fim à palhaçada. Daí, o que aconteceu? Ela voltou a ser a vagabunda que sempre foi.

 

Ela não tem estudos, não possui qualificação profissional, não tem um corpo legal, ela não é boa de cama, ela não tem um bom ciclo de amizades. Pergunto-me, o que eu estava fazendo com uma pessoa assim? Às vezes eu exagero em minhas teorias suicidas, em minhas teorias da compaixão. Às vezes eu me puno demais e perdôo a todos as falhas. Às vezes eu me exponho demais para pessoas idiotas e levianas.

 

Naturalmente, caro Márcio e antigo Leonardo, os idiotas a que me refiro são pessoas iletradas e, por isso mesmo, maliciosas; pessoas dissimuladas e, por isso mesmo, sujas; pessoas que não possuem o recurso da arte ou de qualquer campo de representação simbólico e que, por este motivo, se aproximam bastante das bestas, dos animais em cio ou com fome... para essas pessoas, até a fome é mais feia. Refiro a pessoas sem cartas na manga, a pessoas que não possuem recursos teatrais e que, por este motivo, falham em tudo. Falham no trabalho, falham nas posturas, falham nos gestos, falham em sinceridade, negam a todo momento os instintos em favor das aparências, pois as aparências são tudo para quem não possui nada de simbólico, para quem, enfim, não tem cultura.  

 

 



Escrito por William Lima às 12h57
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Após todo esse tempo de absurdos e equívocos

 

Fui duramente distraído por emoções fortes e dolorosas durante todo esse tempo. Eis: relações que pulverizaram meu sangue e minha escrita. Para renascer é necessário um pouco de calma e tranqüilidade para que as idéias fantásticas apareçam. Aliás, as idéias nunca me faltaram. Sobraram, abundaram. Esbanjo-me em idéias. Dentre elas, gosto das absurdas, gosto também dos fatos absurdos e daquilo que acho deles absurdamente.

 

Nesse tempo me decompus em relações levianas, freqüentei antros e freqüentei diferentes e pudicas famílias. Fui apresentado a idiotas e fui apresentado a pessoas de bem. Consegui também nesse tempo repousar meu constante trabalho em bares com música e em beijos encantadores. Todavia, os misteriosos homens invisíveis que me perseguem começaram a me tirar as coisas... Tudo foi se esfacelando ao meu redor, sumiram-me entes queridos, sumiram-me as boas pessoas e o bom capital, sumiu-me a consciência, sobrou-me a força do corpo, a presença em contraste com o vazio que me redoma.

 

Bah! O mais importante é que em 14 de janeiro deste ano conheci o amor da minha vida, aquele que eu pelo menos achava que era, evidentemente que consegui perdê-lo irreversivelmente por falas caluniosas. Muito engraçado dizer AMOR DA MINHA VIDA, muito engraçado mesmo, somente o texto me revela o quão tolo eu fui. Ora, amor da minha vida é idiota demais para um homem livre.

 

O fato é que ela tem pouca estrutura para ouvir coisas absurdas, principalmente as absurdas que são mentiras, mas acabo fazendo parte de um teatro poderoso, portentoso, com inúmeros coadjuvantes e mesmo dublês. Há também a corja dos admiradores que, esperando um choro meu, vêem meu completo amadurecimento em vias de desaparecimento. Sou um vírus retroativo, sou um retro vírus, é impossível me deter.

 

Meus fracos antagonistas me acordam para a vida, como se eu tivesse apenas tirado um cochilo, um leve cochilo, revelado pela falta de compromisso com a arte, seja a arte da vida, seja a arte da escrita. A arte sobrepuja a tola relação com o outro, aqui se tem mais de mim e menos do outro. As falas caluniosas refletem a obra teatral, se conseguidas serem vistas de fora. Como espectador as coisas tornam-se límpidas e paradisíacas, sem atropelos e arroubos. Assim, após todo esse tempo de absurdos e equívocos ganha o teatro e se perdem os cegos.

 

O amor da minha vida foi enquanto durou o espetáculo e a carência de idéias.

 



Escrito por William Lima às 15h30
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Estilo de Vida

Esse estilo de vida que se materializa em atos é algo premeditado. Interessante observar a ação. Interessante observar que sempre há ensaios. Interessante observar que todos têm opiniões mesmo quando calados. Parece, conforme li em apêndices pedagógicos, que a partir dos doze anos, começamos a fabricar cidades, situações, arsenais, hangares, guerras e mundos diferentes dentro de nossa cabeça. Passamos a fabricar opiniões em silêncio, sem precisar, como a criança, de externar mais fortemente o que se passa em si. É um dado disperso e sem referência bibliográfica, mas ilustra outra coisa para além.

 

Não se pode afirmar que se sabe ou que se domina, já que não se conhece aquilo que se passa nas fábricas fechadas e internas de uma mente evasiva. É possível ainda pensar em algo fora ou diferente mesmo sem se calar, é possível mentir falando a verdade. A verdade é algo nítido, visível, memorante; o falso pode infiltrar quando falamos do verdadeiro escondendo o falso. Um estilo de vida entra aqui, pois, somente e só, revela o verdadeiro, incluindo suas falsidades. A falsidade ou divergência camuflada, prefiro assim intitular, é a pura verdade, é a excelência material.

 

Para concretizar a personalidade – não sou psicólogo nem nunca estudei psicologia nenhuma da personalidade – basta que o sistema chamado Ego tenha leis próprias e que quando feridas provoquem reações previsíveis. Não se pode ir além de si mesmo, o sistema depende de sua finitude. Por isso, as reações todas e integrais de um fidalgo, indivíduo valoroso e de personalidade forte, não ultrapassam aquilo que já estava em suas cidades, situações, arsenais, hangares, guerras e mundos diferentes dentro de sua cabeça.

 

Só é possível modificar-lhe a natureza quando a estrutura se rompe, mas o rompimento dessa estrutura profunda do ser não é liquefeita, é, antes, petrificada ou naturada. A transvaloração, a transmutação ou ainda a revaloração redundam em fraturas que remontam à primeira fábrica de imagens e vontades. Assim, numa mesa de reuniões em que os Egos estão aguçados se prevê resultados semelhantes com pessoas semelhantes. A mistura conforma uma receita em que a ordem dos fatores não altera o final.

 

O silêncio, porém, pode sim modificar o resultado das relações, ocorre que para o sábio, nem o silêncio passa desapercebido, pois o imperador “estilo de vida” é algo ditatorial para quem o possui, calcifica sua sobrevivência e supervivência. A dor das modificações é quase insuportável, não se trata de entes comportamentais, trata-se de entes alojados em uma estrutura profunda. Ninguém quer abrir mão de si mesmo, por isso muitos admitiram a estratégia do silêncio.

 

A questão é: até quando o silêncio pode reduzir atritos e faltas? Até quando uma agressão contida pode permanecer “latente”? As fábricas de sonhos são reais e saltam à luz do “enxergador” ou “de-si-mesmo-enxergador”. As guerras materiais preditas nas histórias fabulosas e peraltas são sempre mais violentas quando postergadas. A dor caminha em suas duas frentes bélicas: quebrar o vaso e refazê-lo – ação que significa perda total – ou silenciar e cair em desuso – ação anti-vida, pois as imagens jamais se apagam, ali não haverá silêncio.

 

O estilo de vida é implacável, mais que uma escolha, uma imposição da alma. Quanto à mídia, se ela está presente ou não, isso é uma outra discussão, mas, se menos dolorosa porque aplaudida, ainda dolorosa porque imposta.



Escrito por William Lima às 17h57
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A BELEZA maior do que todas as RIQUEZAS

A Beleza é mais rica do que todas as Riquezas. Tudo que se quer e pretende na vida desemboca, após todos afluentes e rodeios, naquilo a que se almeja e naquilo que se chama Beleza. A Beleza física para bom admirador não traz nenhuma espécie de critério mau para julgamento, vez que ninguém é como Dorian Gray, isto é, a face, algo de plena transparência, também pode revelar o feio da alma. Entrecho bíblico diz também que os olhos são o espelho da alma. Nada pode negar-se a si mesmo quando face a face. Nenhum sorriso fingido brilha com a mesma honra e decência do que um sorriso explosivo, aquele sorriso tênue e incontrolável, o sorriso sincero do reencontro.

 

Sabe-se pela Beleza do corpo o que se tem feito dele, sabe-se da falta de pudor ou de respeito. Enfim, a Beleza é a grande riqueza do paraíso, da união dos mundos, do contato de ontem com o dia de hoje, do contado do sempre com o agora. Da vida desenhada na infância e de sua competência ou fracasso atuais e adultos. Eles caminham como se estivessem nas nuvens, a beleza deles contagia e desfaz qualquer ato feiticeiro. As crianças com suas intermináveis belezas me curam da ofensa, da injúria e do pouco caso.

 

As coisas belas são difíceis, já nos predizia Platão. Não gosto de citações, mas essa máxima cabe melhor aqui do que jamais houve. A beleza nos corpos, nas atitudes é algo na ordem do simples. Também em Platão, “aprendemos”, que o simples é o belo. As maquinações, as confabulações, os fingimentos são complicações de alma que enfeiam a vida. Talvez, toda ansiedade seja por causa disto: a queda. O feio cai. O feio não sobrevive. A feiticeira também não. O corpo dilacerado e mau também não. A doença, castigo dos deuses, para aquele que era feio por dentro e teve que morrer por fora também.

 

A dignidade da vida é ser alguém sem interrupções. Não invadir com preceitos demoníacos e horrorosos a dignidade do sangue corrente nas veias. A vida pressupõe Beleza, mas a negatividade assola pelas complicações e rodeios. O simples é infalível, porque indivisível. O Belo é indivisível, impossível de comprar. A um outro parecerá que essa Beleza é excludente, mas não, a Beleza só é vista por olhares nobres. Essa Beleza mais rica que o ouro e a granfinaria corriqueira é sempre algo que assusta, pois, resplandecente, aparece imediatamente, ela não pede permissão para entrar, apenas é. Incomoda pela invasão e invade mentes feias como que dizendo: “Não tenho culpa por sua fealdade, é que sou simples demais para me esconder”

 

Trata-se de auto-exclusão, os feios são complicados e preconceituosos, descartam a hipótese de o simples trazer bem-aventurança. No “El Dorado” previve o simples, lá todos os entes são lindos, são belos, belos pela diferença contemplada de cada um, pois a beleza unida em cada um se soma, e umas às outras trazem o indefinível nominado “SUPER BELO” ou “ BELEZA SUPERABUNDADA”. Definições complicadas e tolas para o inatingível belo da essência pura e intransferível da simplicidade.

 

Um pote de água na cabeça, as roupas batidas no tanque, um sorriso dilatado ao transeunte perdido, um arena em que as emoções dispersas correm sem medo, sem medo do lugar, sem medo da chuva, sem medo do escuro, sem medo de construções enviesadas. A BELEZA não pode ser nominada pela perdida e falha letra, o que demonstramos, às vezes, é o nosso carinho pelas pessoas simples e felizes que vemos e que nos fazem questionar se não estamos sendo complicados demais.



Escrito por William Lima às 17h16
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Datas perfeitas e congruentes

Ontem acordei e logo cedo fiquei me indagando sobre 24/10, fiquei pensando o quê de importante essa data tinha. Pensei, fechei os olhos, fui a todos os meus conhecidos, a todos os lugares idos e encontrei uma referência chamada A. D. A., um amigo que tenho há 12 anos. Era aniversário dele.

 

Esporadicamente me lembro dessa data e quando me lembro vou à casa dele para comemorar seu aniversário, mesmo quando não o vejo há muito. Isso porque me lembro que há muito mais tempo ainda, ele, o A. D. A., me dissera: “dia 24/10 é meu aniversário, todos os anos tem festinha lá em casa, é só aparecer.” Já é o segundo ano consecutivo que me lembro e vou pra lá tomar umas biritas.

 

Em outro quadro quotidiano, afirmo que fiquei sem ver a Rafaela durante uns 6 ou 7 anos. Só que nesse mês de outubro, após ter ficado todo esse tempo de fora, tenho encontrado a Rafaela com uma freqüência assustadora e em lugares jamais pensados. Duas vezes em um mesmo bar, na primeira vez nos cumprimentamos, na segunda não. Depois em uma sinuca, depois numa rua qualquer quando ela saía de um salão de beleza, depois em uma churrascaria... Isso em um prazo de 15 dias. Estranho.

 

Naturalmente que ela também estava lá ontem, no aniversário de A. D. A. Ela me vira e rira. Contara a todos, em tom de brincadeira, que eu a estava seguindo; sua mãe rira também pois todas as vezes que Rafaela me encontrou nesse mês de outubro à mãe contava, perplexa, os detalhes do “encontro”. Com direito a todas as frases de efeito que com freqüência uso.  

 

A questão é mais grave e delicada do que se vê: também estávamos nesse mesmo dia e nesse mesmo aniversário 10 anos antes, só que, daquela vez, estávamos nos beijando. Assim, exatamente no dia 24/10/97, eu e ela, por uma sábia decisão, decidimos, juvenis, que nos beijaríamos, mas depois, terrivelmente, quase não nos encontraríamos nem para lembrança. Lembro-me com facilidade das datas, mas encontrar a Rafa 6 vezes em um prazo próximo a 20 dias e em um aniversário que me lembro apenas no dia em que ele acontece é estarrecedor. Parece que marquei com ela 10 anos depois. Se tivesse marcado teria esquecido.

 

Outro "evento" fora ter encontrado o L. E., ele ficou contando piadas e só não estragou a festinha porque ele contava e interpretava tudo muito bem. Nessa mesma esteira de datas, ele me lembrara que há também 10 anos havíamos marcado um encontro em frente aos Correios no dia 08/03/08 às 15:00 hs, tal qual em O Encontro Marcado. São datas distantes, equivalentes e congruentes. O L. E. vindo me lembrar de datas? E me lembrando de algo tão absurdo assim? Onde estou?

 

Enfim, o A. D. A., mesmo distante, ainda é um amigo, pois vou anualmente em seus aniversários; Rafaela, uma mulher interessante que, coincidentemente, tem cruzado meu caminho e que dez anos depois está no mesmo lugar, na mesma casa, sob as mesmíssimas condições e a cena enfim, passados dez anos, permaneceu inalterada, o sorriso dela se matém intacto; L. E., enfim, me lembra de datas há muito programadas, são loucuras juvenis que eclodem e causam estrondo no futuro, semeando palavras e colhendo datas. 

 

Confusões entorpecedoras e insinuantes. Poder de sedução do tempo. Sei que se sinto as lembranças da Rafa ela também sente, sei que ela vive isso também, pois as minhas coincidências, quando compartilhadas, deixam boas lembranças e recordam todos os sentimentos na pele, nas emoções táteis. 



Escrito por William Lima às 16h15
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Conversa Atravessada

Ouvi frases do tipo este fim de semana: “a favela é um erro, o ser humano não está preparado para esse tipo de construção.” Naturalmente, deve-se pensar em entonação e intenção, às quais sondo e vejo com extrema transparência. “A favela é um erro, já as ruas e o asfalto e as boas moradias, essas sim devem ser implantadas para todos, a favela deve acabar” Na verdade, o que incomodava este homem não era o seio e o ventre da favela, mas o contraste entre sua vida considerada bela e ideal e a vida do favelado considerada feia e “coisa” a ser eliminada.

 

Dever-se-ia, segundo ele, modificar a mente das pessoas pobres, fazê-las pensar como ele, mudar-lhes a história em segundos, ou dizimar a geração que não se deixar mudar. Era uma questão ideológica, as mentes dos ricos segundo este homem eram as corretas. Dizia ainda: “Se eu for morar na favela, que Deus me livre, consertaria pelo menos o cano que estivesse estragado em minha porta, faria com que os que se acostumaram com o esgoto a, pelo menos, consertá-lo, isso pelas ‘minhas atitudes’, pela minha ‘ideologia’, que é a correta.” O pior é que este homem associou favela e pobreza à herança afro que o Brasil tem.

 

Retruquei sem esconder minha revolta: a favela não é um erro, é algo essencialmente humano, existe uma coisa chamada cultura em favelas.  Tentei curá-lo e demonstrar que pobreza e necessidade não descaracterizam o ser humano, nem sua cultura tampouco suas origens. O discurso deste homem branco, com traços arianos, com bigodes ritlerianos, tinha um ar de bondade, ele quer, em seus ideais, tornar o mundo igual e belo. Ora, isso não é por sua bondade, senão que pelo seu conforto e, até mesmo, por fins estéticos, porque o mundo ficaria mais bonito sem pobres, sem favelas e quem sabe sem negros.

 

Este homem ainda dizia: “a ideologia dos ricos é a correta” Um outro, participante do debate e branco, ainda endossava o que ele dizia: “ os pobres até mesmo recusam a convivência com os ricos”. Verdade seja dita, nem os pobres precisam humana e culturalmente dos ricos, nem os negros precisam da cultura que se diz européia. Se os pobres sobem os elevadores, por que os ricos não visitam com freqüência a morada dos pobres? Despeito ou ferimento de ideiais estéticos.

 

A associação entre pobreza e etnia é algo ultrapassado. Hoje, deve-se salvaguardar toda e qualquer cultura ainda que ela incomode.

 

Por fim, este homem queria mudar o mundo transformando a mente dos pobres e alterando-lhes a moradia. Suponhamos que isso se dê em cinco anos. Pergunto: você teria condições de dar empregos também iguais ao seu ou rendas iguais a sua a toda essa gente? Não basta mudar o contraste urbano!

 

Vejo que é só uma questão estética. Darwin foi eliminado pela própria teoria que ergueu à humanidade como resposta falível às fraquezas e às perdas. Darwin perdeu para o multiculturalismo e para a vida de cada um mesmo que difícil. Perdeu porque Deus existe.

 

O morador dos aglomerados tem sua vida, deixe-o em paz, ele não precisa de soluções que lhe digam: “ a favela é um erro, você também é um erro, a mente dos ricos é a certa, pense igual a mim que você sai da favela.” A humanidade – digo com esse ar solene – não necessita de pessoas que queiram mudá-la, necessita de pessoas que respeitem a vida de cada um como ela é ou do jeito que eles são. Aceite-os.

 

Não sei, por fim, quem é mais radical, se o homem das idéias “geniais” ou eu que rejeito mudanças que nos escravizem e que nos tirem a liberdade de ser aquilo que o destino quis, felicidade não depende de mudanças gerais e externas, depende de autoconhecimento. “Conhece-te a ti mesmo”, fala aqui o nosso amigo grego.

 

Livre não é o rico ou o que quer destruir a favela, livre é o homem que não se deixa escravizar, porque sua CULTURA não permite, mesmo que a intenção sugerida lhe pareça boa ou vinda de Darwin eliminado. Na verdade, nem boa aparência esse ideal possui.



Escrito por William Lima às 18h50
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Caos, Cosmos e Cronos

Um grande amigo que tive até o ano passado, C. A. M., ligou para mim do nada, queria saber dos “meus progressos”. Na verdade, o único progresso de um ano para cá fora o ganho irrisório de alguma serenidade, mas, se um ganho mínimo, notoriamente um ganho de qualquer jeito, em vista do insuportável que praticava por não ter nada e não querer nada.

 

Enfim, C. , por seus motivos, queria o telefone de outro amigo nosso, chamado M. M. G. J. O fato é que M. também havia sido um amigo até o ano passado, eu não o via há muito, e nem mesmo seu telefone eu tinha. Isso foi na terça-feira. Na quarta feira pela manhã sem que eu realizasse qualquer intervenção, o que acontecera?

 

M. ligara, coincidentemente, para C. Seus motivos, queria falar comigo.

 

Resumindo, C. ligara para mim querendo falar com M, mas eu não tinha o telefone de M, mas C. receberia na manhã seguinte o telefonema de M. que queria falar comigo, mas que não tinha meu telefone.

 

Segundo C., houve certo custo para achar meu telefone; segundo M., ele tivera que se utilizar, como homem de justiça que é, de um expediente ultrapotente para redescobrir o telefone de C.

 

Não conversávamos há mais de um ano e de repente se cruzam as histórias. Ninguém disse a C. para me ligar para procurar M., ninguém disse a M. para ligar para C. para me procurar. Todos estamos absurdados com isso. C. ainda dissera “foi o W. que te deu o recado”, M. respondera, “ele não me deu nenhum recado, na verdade, estou ligando porque gostaria de falar com ele”

 

Esse cruzamento de espectros e imagens d’além não representa nada. O que severamente se chama de coincidência dos últimos tempos para mim se chama palhaçada. Há algum palhaço por aí manipulando algum tipo de coisa que vem paulatinamente se sucedendo comigo. Se não é um idiota que anda fabricando cenas, deve ser o Caos tentando tirar as contas comigo ou o Cosmos dando as caras.

 

Um vez destruída toda a organização da matéria e todo o senso de equilíbrio e humanidade, assim o Caos dá lugar ao Cosmos, e o Cosmos por sua vez se equilibra em Cronos, tudo se revela em ordem, mas a organização sideral da vida tem tido diálogos abertos comigo, tem dito coisas do tipo: “se tu, de certa maneira, duvidas do mundo dos sonhos paupáveis, do espectro real de teus fantasmas, as provas irão superabundar em teu mundo físico, para que vejas e sintas que a tua indiferença tem causado a ira divina, aprende enquanto é tempo.”

 

A indiferença reflete o Caos, Cosmos entrecruza as correntes e dá sentido a cada uma, Cronos forma a coincidência dos tempos já previstos pelo oráculo.



Escrito por William Lima às 15h23
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Grades que vêem

Não existe licença, não existe perdão para quem mudou sem pedir licença. Existe uma decepção daquele homem que poderia ter sido mas não foi, daquele amor que poderia ter sido esboçado e não se esboçou, a foto instantânea falhou por não se definir. Repentinamente descubro, estranhando-me, que não sou quem eu poderia ser. O mundo externo me cobra coisas que me impedem de ser eu mesmo, mas eu ajo assim há tempos, por isso acho risível uma intervenção. Decerto, fiquei muito tempo encarcerado em meus caprichos, quando, então, tenho que lidar com o outro ou com a outra, e sempre existe outra, fico bobo e paralisado pela opinião que têm.

 

Não existe repreensão que não seja encarada como ridícula, não existe conselho bom, para aquém de mim você não existe, você e suas ações sofregas não age, tu não serás um bom reagente em mim. Não me enjaulei querendo, enjaulei-me sem sentir, só sinto quando alguém de fora diz que estou enjaulado. No entanto, sou mais livre, sou mais celeste... O mundo externo a mim é criminoso e as pessoas do mundo vivem suas cegas liberdades. Respiram a LIBERDADE. Eu, pelo que penso e sou sangrando, não acho ruim ver a perdição, mas acho graça quando sou censurado no seio de meu arsenal chamado obra da imaginação ou mundo celestial, que passa pelas constelações com extrema desfaçatez. 

 

Fico abismado com os conselhos, fico entorpecido pelo superficial, assistindo a esse cinema água com açúcar. Entretanto, perco com minha loucura da lucidez toda e qualquer possibilidade de amar. Isso sim me deixa tremente, palpitanto e tendo a exata noção da existência e da mortalidade. Parece que o sangue nas veias surge consciente de seu trabalho e afirma seu milagre da circulação num topo médico das circunstâncias. Sinto ver simultanemente os dois mundos e isso me deixa sem bússola e sem oriente, orientando-me pelo sangue aqui e pelo infinito lá. Sem viver nada de lá em cheio, nem nada de cá do amor plenamente.

 

O belo modelo das cores cromaticamente combinadas, os paradisíacos lugares e a propaganda ao lado, roncos e liberdades motorizadas, avenidas e verdes arejados, tudo isso devidamente construído pelas mentes cegas não faz o menor sentido para um que existiu demais por si, teve compreensão demais de si como ente vivo e que sente todas as feridas a ele impostas. Não faz o menor sentido a tola ambição de um amor comercial, fruto de uma inútil reputação.

 

A genética criou seres cadavericamente misturados entre sentimentos potencialmente pegajosos e matéria concretamente mortal; enfim, das luzes de neon e da escravidão dos menores. Eu existi muito mais do que propaguei. De mim, nada foi propagado, pois me bastei, por isso condizentes com a cegueira reputaram-me enjaulado, mas no plano macro da pintura surrealista o lado de dentro da jaula era bem maior que o mundo inteiro que a aprisionava, mas preciso amar ainda sim a prisão de um cego e embasbacado amor. Ad aeternum.



Escrito por William Lima às 13h34
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Prosa das inversões sintáticas com tema desencadeador

Pontes existem e diferentes planos que quando em vez se sobrepõem. Maduro, um casal, qual for que seja, mas um casal. Uma união há que ou a um afasta de si ou a outro afasta de si também. Qualquer que seja uma para citar que fosse, mulher, a alguém, ao se unir, as forças equilibra fantasmagoricamente. Qualquer que fosse o um, citando-o já também, se une ao juntar, e partilha ele com ela das balanças a união.

 

Pode ele ser astro estelar, mas se a ele se une uma plebéia, caem então as estrelas suas todas. Por seu lado ela, se linda for na presença se enfeia de um monstro que é ele. Equilibra-se o casal quando no sexo se junta; se junta, natural, se equivalem. Por isso, de pessoas de bem o conselho de que ajuizada moça e boa tu deves escolher para ti, ó homem; e escolher deves tu, ó camponesa moça, partido bom que a ti a vida boa dê.

 

Qual mais cruel é, sei eu não, qual o mais correto em tudo me confunde. Se, por um lado, formar-se-á o casal por ajuizadas escolhas, ficará então onde o amor? Se, por outro, conjugar-se-á o casal por desajustadas opções, como a vital atitude de respeito consigo mesmo ficará?

 

É que o fato que tudo equilibra. Se ele rico for, rica ela será; se louco for, louca deverá ser. Pontes distintas para cada qual existem e diferentes planos que quando em vez na formação de casais se sobrepõem. Trata-se da espiritual união dos sexos que a tudo mistura em si. Trata-se de quando não sabemos nós que o casal quando se une um pacto sela, mesmo que por de palavras a troca, vez que o mesmo é o conteúdo e sua mistura os destinos e contornos finais não afeta jamais.



Escrito por William Lima às 13h33
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M.

M.

 

M. tem dezoito anos, suas vestes alvas trazem à luz parte de seu corpo juvenil e elaborado. M. já compreende bem todos sentidos, testa-os com extrema astúcia e segurança. Brincando com os últimos rudimentos da infância ela sorrateiramente se esquiva de suas contemporâneas. Olho-a de frente, ela me vê e lança um olhar desrespeitoso e cênico, parece dizer algo, o olhar narra a mim. M. é linda, pele chamativa, mas em seu coração já reside a fealdade. Por um momento entrevejo sua beleza corrupta pelo espírito. Algo de negro e lamacento escorre de sua boca outrora limpa. Existe fatalmente uma diferença entre M. e Rosa, entre M. e Polliana, entre M. e Renata, entre M. e Leda. M. se corrompe pelos atos, M. fizera um pacto silencioso com o mal.

 

M. agora não tem mais dezoito anos, mas o espelho sempre reflete seus últimos momentos teenager. Perdoem-me o anglicismo, é que para M. soa melhor do que nunca. É que M. é um pouco voadora, aérea, percorre ventos, perfaz estrelas, alça sobre serras. M. não é mais M., M se perde em seu próprio M. M. não sofria, apenas exagerava seu prazer, sugando a mortalidade de seus contemporâneos, ela dizima a raça.

 

O jardim está lá, ela ainda me fita com um sorriso dilatador de medos, mas inclinador de emoções. Ela pretende dominar o mundo com sua audácia, beleza e pose, mas principalmente pelo seu ato sedutor maquinado em sua sala mental de confabulações. Nessa sala ninguém entra e todos se perdem mesmo ao lado de fora. Mas justamente esse é o poder. Maquinação de todos. Dominação de cenas.

 

Mas o caldo negro continua caindo em flash. Perdoem-me o anglicismo, é que para M. soa melhor do que nunca. É que M. está se transformando terrificamente em uma serpente negra. Melhor, ela continua tendo a humana forma sedutora da criança antiga. Ela agora se confunde em lama, em sacrilégios. Ela é uma bruxa. Já nova seduz, mas seus artifícios morais de dominação não são apenas por ela, por trás de M. figura o seu anus. Muitas vezes lacerado, muitas vezes o portal das rodas que descem mas não sobem. Aos que ultrapassam M. não existe qualquer Esperança.

 

Ela, porém, sente saudades da exuberância e do viço, arrepende-se um pouco, mas sabe também que no portal que estará também estará o letreiro luminoso tal qual em Shopping Center. Perdoem-me o anglicismo, é que para M. soa melhor do que nunca. Na placa luminosa dos portais está escrito. Para você M. que destituiu a família do senso humano a ultrapassagem é obrigatória e sem Esperança.

 

Continuo olhando para ela e ela para mim, fico estático, imobilizado pelo pasmo. Forço minha compreensão para entender M. em seus dezoito, forço para assimilar a negra serpente, forço para compreender o fétido lamaçal. O que vejo são apenas prenúncios. A viagem prescinde de foco. Forço mais e me espanto ainda mais: vejo-me agora, como quem vê sendo si mesmo, não de fora. M. proíbe com chantagens o avanço.

 

O futuro vai cobrar respostas em inglês, dizia o finado professor de inglês que tive. The future says me about the certain and absolute ruin of the prostitute per saecula saeculorum. E ela ri, gargalha, gargalha como gargarejo, uma mistura de sons animais em sua língua. Permaneço parado sabendo acerca do futuro de P., isto é, M., assistindo ao sofrimento interminável de todas as injustiças.



Escrito por William Lima às 14h42
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A Prostituta e a Noiva

Arremessada ao fogo do Inferno depois de muito blasfemar contra a vida. Reza algum santo em uma capela oca de Idade Média: ad inferos per saecula saeculorum dolorem plenam et mortem aeternam illa uiuat. As famílias correm, as casas se destroem e do alto céu sinistras catástrofes surgem, há muito anunciadas pela ira divina. Babilônia, região sua, corrompendo varões guerreiros, tolos humildes, os desavisados e mal estudados. A ciência é tudo, absolutamente tudo, que ela, a Prostituta, não quer. Nem mesmo no lamaçal ela entende, será uma eterna ignorância ante a luz.

 

Honrada com guirlandas perfumadas, a Noiva, intitulada Bela, Linda, Efetiva, Esperança, Espera, Guarda-Almas, Portadora do Segredo Eterno e Humilde do Amor, ela percorre todos os recantos celestiais mesmo nua, mesmo limpa, imaculada, para ela a pureza não depende de preceitos humanos, sua clareza de espíritos conforma todos os anciãos que assistem ao oposto, a queda, a rejeição, o desaparecimento. Honrados com águas límpidas salmodiam os fieis repletos de alegrias desenfreadas e puras em suas faces. Faces de inacreditáveis belezas, jamais forma e face humana alguma aproximam-se daquele encantamento.

 

Encantamento. Encantamento. A perfídia dos seguidores da Babilônia transgride norma e função pura do Encantamento, tombando-o tais quais letras em itálico. A Noiva, por seu turno, chamada Esperança e Recompensa, as tem em negrito puro e maiúsculo: ENCANTAMENTO. O encanto derivado, declinado do espírito incorruptível que vela pela NOIVA.

 

Surge então, no tempo cíclico, gritos, tempestades e um terrível e horrendo grito. Um grito jamais escutado por qualquer ouvido, o grito da dor babilônica. A Noiva, com um gesto de infinita proteção, está cega de amor e não ouve. Ela agita em si apenas o desejo puro da recompensa. Os céus desaparecem entre o que era e o que é agora, um todo diluído e morto. A imagem da destruição dos céus é absoltamente terrível e despoetizada, sem matizes definidores à compreensão humana. Todos os sentidos são exacerbados. Inclusive o sofrimento da Prostituta. Tudo, infelizmente, havia começado para ela em um dia ensolarado e feliz, com o mundo às dádivas, havia água, sombra e Felicidade, mas que tenebrosamente desaparecem quando o mundo paralelo desaguou aqui.

 

Somente a Noiva ficará comigo, somente a Noiva, somente a Noiva. Nunc lego in tua luce Amorem et Gaudium et Formam et ipsem Me.



Escrito por William Lima às 13h57
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Poesia da fala

O que é um português perfeito? Existe por aí uma definição de muitos acerca de pessoas estudadas, letradas ou que podem ser consideradas mais gente do que outras gentes. Dizem assim: ele ou ela tem o português perfeito. Uma frase engraçada e que dá margem e abertura a algum desvio proposital de raciocínio que preza pelo que quero. Algo a ver com amor.

 

Realmente ter “o português perfeito” é algo que exclui. Tanto pior se o português, além de “perfeito”, for poético. Em certos momentos brinco tanto com as palavras que uns julgam não um português perfeito, mas uma fala poética não forçada. Há várias histórias no bojo de uma aula de filosofia de primeiro período de faculdade de humanas cujo professor – F. Portela – acabo de encontrar hoje mesmo: dizia naquele ano de 99 que perguntaram a um filósofo chamado Mannheim porque ele escrevia difícil, a resposta foi categórica: é porque eu penso difícil.

 

Certa feita, uma anedota que circulou muito na Roma ovidiana era de que tudo que Ovídio tencionava dizer redundava sempre em verso metrificado, uma justificativa que era dada em favor da Musa e em detrimento do Fórum. Ele não tinha vocação jurídica, por ser poeta na fala.

 

Agora vem o meu lado, e sem nenhuma pretensão. Quando estou despreocupado com a cena que por vezes faço, acabo falando com ritmo e sonoridade, as rimas sobrevêm mais raramente, mas há uma poesia inconsciente que chega à fala, isso pelas muitas cargas e recargas de livros e sugestões mentais advindas não sei de onde. Talvez do Helicão, lugar onde as musas vivem. Esse lugar deve realmente existir, a inspiração nunca é daqui é de lá. Trata-se de uma obra celeste.

 

Mas tudo é em todo caso mal administrado por mim, pois ainda faço pouco caso dessa espécie de diferencial que me torna "portador" de uma fala que me faz ou faria "muito mais gente do que as outras gentes". Mas, de fato, recuso-me a ser alguém fora. Quero algo igualitário, mas “eles” insistem em me distanciar! Ora, sou excluído também. Nego, porém, a fé. Sou incrédulo às Musas, incrédulo ao paralelismo agora pulsante, latente, perigoso que me salta aos olhos até por sinais, palavras repetidas na mente e no mundo físico. Desde que aprendi que literatura se faz com palavras e suas infinitas possibilidades belas, corri o risco de sempre fazê-la e a faço. Mas sou infiel e peço para descer desse ônibus vazio e sem destino, nessa eu não pago passagem e o motorista só existe pelo uniforme, não tem corpo. Eu opero o milagre da reconstituição do deserto e isso é pavoroso.

 

Quanto a F. Portela, hoje ele sacou, no banco, 150 reais, e a grana não saiu no caixa, expliquei com um “português perfeito” o procedimento que ele deveria tomar para reaver o dinheiro, pois isso já havia acontecido comigo, e comigo foram difíceis 400 reais, entrei em pânico quando a grana não saiu mas o débito bateu. A aparição dele hoje só prova que a “poesia da fala” tem tudo a ver com a aula sobre Mannheim, isto é, houve outra sobreposição de planos: bebi ontem e tive uma fala poética e muitos riram, muitos se divertiram à custa da combinação de minhas palavras, logo quando escrevo lembro do filósofo e do professor que encontrei justamente hoje, oito anos após.

 

Falar poeticamente requer um constante trabalho inconsciente, pois poesia exige técnica, trabalho, doação, sangue, mas alguém em mim já faz isso por mim, depois é só falar.



Escrito por William Lima às 10h37
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