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Letras maiores do que as Estrelas


Arte e Morte

A arte lida com o campo da fantasia, mas o campo da fantasia é, imaterialmente, vivo, orgânico, fatal. Muitos artistas sucubem ante a própria atitude artística, ante a própria postura de um ente que alcança o além, que alcança aquilo que o vulgo não atinge. A arte, não só por ela mesma, mas a vivência carnal do artista, consumado pela adoração, pelos inúmeros fãs à procura do limite entre o caos e a imortalidade. Hoje, cai Michael Jackson, um que se confunde com o limite de si e do além, um que, tal qual fantasma, operou em si a transição entre a carne e o espectro. Tornou-se horrível pela impossibilidade da metamorfose que levaria à deidade de si mesmo.

 

Para tanto, construiu uma figura de si mesmo imortal, mas que contradisse, pela aparência física e pelas atitudes, a própria essência da vida: a finitude. Muitos dignificam o artista, o homem, os bens materiais, os carros e as motos, os sons e as telas de um pintor, mas mal sabem que a materialidade sucumbe em seu presente aos ventos e aos tempos. Assim, uns ultrapassam os limites da humildade. Ora, mas o quê buscamos senão os repentes luminosos? Ora, busco a luz, busco a imortalidade. Mas a loucura se apodera de grandes titãs, tornando a eles entes fracos: Marlon Brando, Michael Jackson, Elvis Presley, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Fred Mercury, Cássia Eler, Elis Regina, Van Gogh, Beethoven, Oscar Wilde, Dostoievski, Nietzsche... O artista sucumbe a si mesmo potência. A potência humana levada ao limite que falha no corpo. Falha na presunção? Só se for a sua!

 

No entanto, não estou em defesa da mortalidade, estou em defesa da arte e do artista, ainda que este sucumba, pois somente estes disseram a verdade, ainda que humana, uma verdade cruel, sou deus enquanto tiver em mim adoradores, enquanto tiver em mim aquilo que reputo de mim e aquilo que de divino há. Sucumbe portanto o artista e os povos, ante a morte, adoram ainda mais as caveiras. Portanto, acabou a luz.

 

A luz acaba, a cortina desce, a voz se cala e arte continua, pois os fantoches existirão conforme as gerações, cada uma segundo suas carências, cada uma conforme suas ansiedades. Cada tempo com o seu mal.

 

Enfim, o senso da arte é tão sanguíneo ao artista que palco e vida se confundem, morte e vida se encontram. Os verdadeiros artistas sempre levam a arte para além da vida, para além do simples conforto, da inútil piada, não fazem parte do ridículo, do raso, não fazem parte do torto, do mal feito, não fazem parte do calculismo, da traição, do ódio. Os artistas fazem parte de seu plano egoísta, a eles cabe apenas a sua própria arte, ninguém os intimida, ninguém os comanda. Aliás, comandam porque exercem o papel de desafiarem o universo, de crerem que, mesmo pelo lapso da vida, foram deuses. Cantores do universos, pintores de cores multiplicadas, escritores de palavras estrelares. Drogados? Epiléticos? Esquizofrênicos? Alucinados? Nada, isso são qualidades nossas, o mundo não gira em torno do cálculo e da sobriedade. Você não é nada, nem mesmo o artista, o pó chama a arte e o artista registra sobre o pó a sua assinatura.

 

Sinceros, verdadeiros, próprios, originais. Realizam em si o instante da vida, mas a morte, sua eterna companheira, lhe é mais próxima. O artista é a arte e a arte já morreu na última pincelada do artista.

 

Não compartilho de suas vaidades, ser raso e vil! 



Escrito por William Lima às 22h55
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Trechos de um Romance

Escrevi um romance ano passado, como não posso publicá-lo nesse formato, vou expor alguns trechos de construção curiosa, a obra é intitulada Caveiras Enfeitadas e alude ao enfeite que os humanos fabricam ante sua mortalidade que deve ser antes de tudo sincera:

 

Capítulo Quinto “O último homem a quem disse que era “mau” morreu sofrendo em hospital e hoje habita um dos cemitérios dessa cidade. Lá há gavetas e não covas. Em sua gaveta está escrita em minha mente de escrivaninha: ‘jaz aqui lateralmente um homem mau’. ”

 

Capítulo Nono: “Dionísio está em todas as festas e em todas as mentes naturais e da natureza. Não há negação de prazeres carnais, visto que a religião dionisíaca requer o corpo. Os idiotas e tolos são punidos por Dionísio, este deus não tolera hipocrisia, falsas afrontas e a lei que bajula o puritano, por isso ele levará todos meus amigos e amigas para onde se deve ir: para a verdade.”

 

Capítulo Décimo Primeiro: “Para a vida e para a verdade não existe modelo, existe algo que nega ou que não nega a vida.”

 

Capítulo Décimo Terceiro: “Tudo porque uma mulata chamada Glória se recusa a viver por não aceitar sua cor, sua família e sua história. Glória é fantasticamente bela. Chora pela discriminação, mas eu, um dia, trá-la-ei como recompensa. Surgirão mais cento e quarenta e quatro mil, mas agora serão soldados de infantaria pura e simples.”

 

Capítulo Décimo Quarto: “Uma surreal pintura se afiguraria e desfilaria pelo desfiladeiro encordilheirado e se desmancharia em múltiplas cores numa massa decomposta. Júlio vê a cidade de seu ateliê insuperável e alto, do décimo nono andar, com imensas janelas de vidro e com uma arquitetura esplendorosa. Tudo contribui a seus matizes.”

 

Capítulo Décimo Sexto: “...talvez nem tudo que eu experimente do mundo imaterial seja verdade, mas fruto alucinógeno e estupefaciente.”

 

Capítulo Décimo Oitavo: “As cores primárias da materialidade quiseram traçar as cores profundas da imaterialidade. Mas o profundo ganhou nitidez e sobriedade, tudo já me parece vulgar novamente.”

 

Capítulo Vigésimo: “Em seus sonos noturnos e soturnos acorda sobressaltada. Sonha com um homem de cabelos longos, finos e cacheados. Um homem alto e mascarado, dançante, bebendo sua copa de vinho.”

 

Capítulo Vigésimo Primeiro: “Raquel (...) é sábia também em assuntos de moda, pois é capaz de “adivinhar” a profissão de qualquer um, apenas observando o modo de se vestir da pessoa analisada, coisa ou fato que me deixou severamente impressionado. Dissera a mim quem eu realmente sou.”

 

Capítulo Vigésimo Terceiro: “A questão é nítida e simples demais: são todos caveiras, o que devem fazer é simplesmente enfeitar suas respectivas caveiras de adornos viventes ou simplesmente não enfeitar nada. Deixá-la ao relento e às favas. Ora, caso não enfeitem continuaram sendo caveiras, caso enfeitem burlaram a morte por algum tempo e darão mostras de que a sobriedade além de entediante relembra sempre a empoeirada caveira. Terão que amar seus corpos, e para saciar seus corpos terão de assumir sempre que são caveiras, mas terão que ser caveiras cientistas e caveiras voadoras, sem chão, sem norte e sem tolas diretrizes.”

 

Capítulo Vigésimo Oitavo: “Não é porque conheci Glória que me esqueci de Vitória. Na verdade, é porque conheci Glória que quero conhecer Vitória. Hoje, ela está apanhando. Ela está sendo maltratada por João.”

 

Capítulo Vigésimo Nono: “ (Rosa) vive possuída e seduz e caminha no abismo. Muitos se enlouquecem pela loucura que ela perfaz, mas, fique tranqüilo, ela está bem segura no abismo. Ela pode sobrevoá-lo, coisa que Diomedes nunca poderá ver em si, tanto por sua mente atrofiada, fechada e obtusa quanto por sua idiota história de vida."

 

Capítulo Trigésimo: “Pergunto-lhe, meu caro Heitor! Terá sido vantagem negar tuas forças dionisíacas em favor da medicina? Em favor do temperamento calmo, afável e imutável? Não teria o vinho podido te salvar de um acidente fatal, visto que as contas no vinho se atropelam e a exatidão dos cálculos no êxtase se despedaça?”



Escrito por William Lima às 16h50
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Trechos de um Romance II

Capítulo Trigésimo Terceiro: “Ela sabe apreciar as delicadezas de um jogo de talheres argentinos, com detalhes áureos, mas desconhece que o convidativo silício a espera.”

 

“Enfim, pode haver na mente desses amigos ajeitados e desajeitados, elegantes e espalhafatosos, o urânio e o plutônio, esfacelando-se uns aos outros, numa chuva de nêutrons, provocando uma reação em cadeia, mas tudo no mundo pictórico de Júlio, onde predomina agora o plasma, para a sua fase surreal, em que as cores liquefeitas se misturam aos corpos já sem vida.”

 

“Não importa se o silício nos convida, importa se adornamos nossas esperanças com ouro e prata.”

 

“A ciência de Ulisses, isto é, de mim mesmo, é ter luz suficiente para ver aquilo que deve ser vivido e aquilo que não deve ser vivido. A caveira é inexorável apesar de todas as coisas.”

 

Capítulo Trigésimo Oitavo: “Se fores ao descontrole, se fores à embriaguez, ao sexo que se entrega, saibas que isto é ciência e não fuga. Sabendo que vives a ciência do corpo, saberás do necessário retorno, aliás saberás que o mais importante é a razão, ela é o princípio do poder-sentir, do poder-gozar. Só se pode gozar o corpo experimentando o eterno retorno da razão.”

 

Capítulo Trigésimo Nono: “A cartela vazia indica esperança, mas refrata inclemência e ato não misericordioso. A misericórdia não é um símbolo de alegria, de ajuda, nem mesmo de bondade, misericórdia é misericórdia e pronto. Um viciado em jogo não pode requerê-la...”

 

Capítulo Quadragésimo: “Mas é possível que uma alcoolista e dependente química seja assim tão bela? Talvez seja este mesmo o dispositivo de sua beleza, afinal não pode haver nenhuma mulher com esse perfil que supere a sensualidade juvenil de Rosa.”

 

Capítulo Quadragésimo Primeiro: “A carência de enfeites também é ordem dos deuses, o que não é ordem é a vontade, a ciência e a traição próprias de caveiras enfeitadas ou nuas. Coisas que em Mateus assumiam um peso. Mateus perdera a vontade de ser feliz, fundamental à clemência dos deuses; ignorara a ciência, elementar para o corpo como parte indivisível à alma; e, por fim, traíra esse mesmo corpo e, com isso, semeara em definitivo a intolerância dos deuses. Ora, o corpo é a representação da vida.”

 

Capítulo Quadragésimo Terceiro: “‘Não existe julgamento qualificado em qualquer espécie de tribunal que ocupe suas diligências com o delito “traição”, especificamente no caso de Vitória Helena. É inconcebível a condenação visto que a ré em termos grafados na lei se configura como vítima e não como ré. Sua condição de vítima se dá pelos seguintes abusos contra sua pessoa humana: ela não tem prazer em sua relação conjugal, ainda que não registrada em cartório, o que não a obriga a manter relações com seu cônjuge João; ela é livre e possui o direito de ir e vir e amar quem quer que seja; ela, se é casada, não descumpre com os contratos formais de sua união, não se ausenta de seu lar e ainda cuida com zelo de seu esposo.’

 

Capítulo Quadragésimo Quarto: “Os traços exteriores de cada um são a única prova da existência de uma alma, alma cheia de caprichos, vícios e sentimentos. São os traços exteriores o próprio indício da alma. Assim, tem-se que o raio-X é um termo falho, vez que não existe. A revelação é mais óbvia do que queremos enxergar.”

 

Capítulo Quadragésimo Quinto: “Caso haja falhas no sistema seja com origem no hardware ou mesmo no software, o resultado é: perda da forma e ida inevitável para o Hades...”

 

Capítulo Qüinquagésimo: “Guilherme e Glória para o mesmo lado. Na vida, não há modelos, mas supremacia de uns sobre outros. O casal era supremo. Os deuses assim refletiram.”

 

 “Guilherme possui em si a mágoa necessária para se justificar ante a tudo, não depende de idéias, não depende de carinho, nem de atitudes, já as tem de sobra.”

 

Capítulo Qüinquagésimo Terceiro: “Maria, sua linda parceira, é bem submissa a ela, mas não deixa de ser superfeliz, porquanto essa submissão além de ser sua escolha consciente, lhe traz um conforto e segurança infinitos.”

 

Capítulo Qüinquagésimo Quarto: “Frederico não só entende disso como leva seus méritos à avenida nas festas anuais e cíclicas chamadas ‘paradas gays’. É possível que um entendido de moda possa se autocaricaturar. Traveste-se com exageros na medida da técnica exacerbada, dilatada, deslumbrante.”

 

Capítulo Qüinquagésimo Sexto: “A noite abrilhantada pelo espetáculo, acalorada pela representação culmina com os extratos luminosos provenientes do éter. O semiluminoso raio lunar clarifica nobremente o ambiente e dá tons majestosos ao teatro da possessão. Somado aos tons aquecendo também a noite triunfal está o mágico e insinuante som, proveniente de lugares invisíveis, mas possivelmente pitorescos. Assim, o conjunto arquitetônico clássico-anacrônico fecha a traços estonteantes a obra da aparição.”

 

Capítulo Sexagésimo: “A pós-existência ou o quadro Post Mortem de Júlio e o significante Hades de Ulisses são ricos em substância, mas reveladores da simplicidade daquela existência, havia apenas algo de muito sutil para que se pudesse dizer que aquilo era e que aquilo não era.”

 

Capítulo Sexagésimo Primeiro - Último: “Portanto, a existência bastará por ela mesma enquanto durar seus repentes luminosos e as caveiras bastarão enquanto cruzarem a vida enfeitadas. Triunfam, portanto, os sentidos presentes.”



Escrito por William Lima às 16h49
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WOMEN AND SIGNALS

Women and the signals

 

 

De fato, assim como detectamos falhas no sistema de acordo com os detalhes, da mesma forma nos gestos podemos detectar as preferências. Certas mulheres preferem os homens; outras, os mais ou menos homens; outras, os milionários, e outras, conforme as atitudes, preferem mulheres mesmo. Os gestos denunciam não somente homens como mulheres, não há como ocultar nada. Os signos são corpo, fala e sangue. Daí as definições vulgares, quando digo vulgares digo “correntes”: ele é enrustido, ela cola o velcro, ele é gilete, ela é ele.

 

As mulheres que amam homens gostam de si mesmas quando se dedicam ao seu desejo e ainda que o caminho seja de tropeços, encontraram protetores resolutos e filhos revolucionários. Estas demonstram, pelos sinais, que não estão interessadas em outro foco senão o masculino único que lhas atrai. O masculino é composto em um total que resulta numa postura visível e completa. O homem que é homem é homem em tudo.

 

Já as mulheres que amam os meio homens e meio mulheres são necessariamente também indecisas ou mesmo carentes, pois ficam com aquilo que se lhas apresenta, não são capazes de realizar escolhas sóbrias, quando carentes são bem capazes de serem felizes, mesmo se o par for meio homem, pois ainda não experimentaram a força total de um homem, forte, lindo e viril. Os meio homens, por seu turno, às vezes nem sabem quem são, tanto de si quanto da parceira, aliás mal sabem que causam grande bem às mulheres, pois desconhecem que sua masculinidade é fatal e potencial.

 

As mulheres que amam aos milionários – sejam italianos ou espanhóis, ou até holandeses que quebram tudo no nordeste brasileiro – estas querem o conforto aliado ao prazer e a fineza. São sinceras apenas quando requerem dos homens a delicadeza, a sensibilidade, o fino trato, mas são astutas quando se vê que não podem apresentar nada senão o corpo, estas, as corporais, não são capazes às vezes de articular uma fala, uma idéia oposta mesmo que verdadeira em si, como que universalmente.

 

As lésbicas quando sinceras com o seu desejo ferem menos as pessoas, pois há sempre uma Virgínia Wolf por aí querendo se matar por achar que o seu par é um tosco, assistindo a seu fim como num caminho sem volta, caminho que nunca é capaz de defini-lo. Só ela sofre. As lésbicas definidas são perfeitas na sexualidade se o feminino não lhas escapa, pois o feminino é o importante, apesar de o sexo em si ser já um dispositivo de homossexualidade, independente de seu travestimento.

 

Os homens são corporalmente mais completos do que as mulheres, demonstram sua força em todas as partes do corpo, sua juventude, beleza e vitalidade são mais bem representadas. As mulheres, por seu turno, representam o espectro, o falseamento, o fascínio, a idéia perfeita, a sensualidade e a mágica e, por isso, a contemplação, admiração e a loucura dos homens.

 

Enfim, as prostitutas são o fim de tudo, o fim ideológico, como que encerrando um ciclo. Elas vão ao extremo e requerem dos homens apenas aquilo que o arquétipo traz, sem as construções humanas e sentimentais. O de apenas ser homem: usando seu domínio financeiro, brutal e implacável. As prostitutas, quando belas, ainda têm a chance de contrair núpcias, mas as degradadas apenas a feiúra, contraída a cada dia numa roleta que gira de homens a homens. O perigo disso reside no encontro com homens imperfeitos, estes são piores do que as bestas, pois contaminam o universo com suas imperfeições e torpezas.

 

Os sinais femininos fazem parte do código profano lido pelo MAGO.

 



Escrito por William Lima às 16h32
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Signals

O movimento dos astros pode ser tido por ridículo para qualquer leitor cético, mas não só os astros, mas também a posição dos móveis de uma casa, o trânsito em uma avenida, o andar em que se está um elevador, a escala de serviços de funcionários, o voos internacionais em mares tempestuosos, tudo são sinais de que existe uma mensagem: os acontecimentos particulares e universais são de todo interligados, dependentes e consequentes. Os leitores mais agudos conseguem decifrar tudo. Dizem que os esquizofrênicos veem e leem isto tudo como em criptografias e imagens não reais. Eu não leio nada, não vejo nada, mas admito que há que se ter inteligência em crer numa predeterminação de passado e futuro que esteja criptografada nos símbolos mais simples de nossa vida.

 

A predileção por uma cor, a compra de um bem, o horário marcado, o atraso ao serviço ou a falta, uma leve doença em um dia X, um caminhar ofegante ou cabisbaixo. Os sinais dizem sobre uma interconexão. Na verdade, o homem lente assiste com vero e sensível sofrimento a tudo que se lhe revela. Uma xícara quebrada não é um augúrio mal, mas um sinal de que ali havia uma predeterminação para uma quebra, gerada, por sua vez, no jogo anterior de consequência. A se pensar dessa maneira já estou morto, pois nasci, mas a insignificância da matéria viva e pulsante se revela mui simplória, mas o imaterial, por ser mais forte, pode ser levado em forte conta. Se estou morto já sei de minha determinação, sei da duração de tudo e das reações em cadeias a que me pertencem.

 

Um homem comum não enxerga a física ou a metafísica, não percebe que o seu instante é uma pura e bizarra mentira no âmbito de seu controle e presunção.Não sabe que no campo da linguagem nada é isolado. Como então mentir para um homem que vê em cada detalhe uma narrativa cíclica, infinita e sem fragmentação? Os detalhes, a criptografia, as mensagens estão aí. O gesto da dor nada mais é do que a reação anterior à própria dor, mas a fração de segundo torna ao homem comum um ignorante, pois se julga portador da consciência de que doerá, mas ele não porta isso, senão o ato de levá-lo à dor, o sentimento da dor preexiste à dor, além de ser mais forte.

 

Não se sabe por exemplo que hoje, dia 16 de junho de 2009, tem uma força infinita ao universo vivo e não vivo, a matéria de tudo anterior e posterior depende de hoje. Enfim, os verdadeiros videntes e advinhos são físicos, pois a imaterialidade está representada na física. Sei ler os sinais físicos da vidência, por isso 16 é muito mais forte em si mesmo do que fora dele. A força é central e única, partida de um grande explosão inicial do universo de cada dia, para se prever que a posição física das coisas simples partiu de uma origem e, previsivelmente, se chegará, por cálculo, ao objetivo e, por fim, ao futuro matemático.

 

A “telepatia” consiste em ver além do que se vê, ler o pensamento porque tudo é uma sequência, é como prevermos que aquele pênalti será batido e será defendido pelo goleiro. Ora, como saberíamos que o batedor iria errar se não estávamos lá? Como “adivinhei” a morte de meu avô e todos disseram que havia muito drama? Como detectei mentiras? Ora, sabia que teria um filho e ele virá por uma sequência visível. Não é possível mentir para um homem que lê o mundo, pois, ao ler o mundo, este homem sabe os enredos, as falas decoradas, prevê e vê os acidentes e sonha com a realidade, fazendo seus projecionismos quando pode.



Escrito por William Lima às 17h07
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O sangue e a máscara

Os atos por mim realizados não são maquilagens douradas, não têm ligação com o Egito, ou com a Babilônia, ou mesmo com Roma. Na verdade, os atos têm ligação com o sacrifício de sangue, limpo. Absolutamente nítida é a expressão da verdade. De fato, tentei mostrar aos meus a inteira vontade de ser. A integridade menos valeu às maquilagens dilacerantes, mas bem necessárias à manutenção da farsa.

 

O jogo é cruel e desigual, enquanto se age com o sangue, costumam agir com as máscaras. Qualquer ato daqui partido dói, mas para o mascarado não dói nada. Então se há um consórcio, existe uma injustiça, pois um dos sócios agindo com o sangue dá mais de si. É diferente, é autêntico, o homem sanguíneo é realmente aquilo tudo. Ouve sem maquiar que ouviu, sente sem desviar que doeu, sonha sem anular os auspícios.

 

A linguagem é o seu arsenal porque o sangue é seu arsenal. O sábio idoso da cordilheira com sua voz de muitos conselhos dirá: “Jamais despreze o sábio das letras, pois tudo para ele é feito com o sangue” Isso terá um preço infinito, pois o jogo de construção da vida a ele pertence, montando as suas verdades com o signo, é, portanto, capaz de os rumos modificar. Os mascarados são pouco doutos e deveras incongruentes, os mascarados usam o corpo e a materialidade para rumar suas trajetórias, utilizam-se do ambiente presente para justificar seu pensamento babilônico, tudo é matéria e enfeite, ouçamos Babylon por Zeca Baleiro.

 

O sangue rejeita a máscara, doem-lhe as entranhas, secam-lhe os ímpetos vívidos e tal qual um fruto comido, com sua polpa retirada, ali está ele neste consórcio. Um vai ao limite da força humana, outro joga com o passado e com o presente. Uns querem luxo, conforto, às custas da boa vontade de outros. Ora, o passado é a prova da máscara. Jogam a ti a máscara e usas porque não tens RECURSO. O sanguíneo das letras caminhará cambiante e unânime em sua consciência, em seu favor e justiça.

 

Para que caminhar no meio de mascarados se o sangue revida a tudo? Serás odiado, invejado, destroçado, mas somente nos aparatos físicos, vez que o sangue sempre se renova, o corpo te redime a cada dia. O sistema bruto que és tu, homem sanguíneo, te reestruturas terrivelmente. O meu DNA se reestrutura enquanto as máscaras se dilaceram, para que no outro carnaval fantasioso do Egito sejam trocadas.

 

Troque e terás o justo preço de uma fatalidade infalível. O peso de meu fantasma, o valor de minha bondade.



Escrito por William Lima às 12h40
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SETE CIDADES A UM TEMPO

Naquela noite de verão daqui partido

Fluindo pela Fernão Dias pela Régis vias boas

Para em luz noutra manhã surgir-me Curitiba

Por nus olhos racional cidade enxergo

Humano à vida divino projeto aos justos

Em tudo panorâmica e de agradável fluidez

 

Sobrevém então a Florianópolis ilha

Dita Floripa repetidamente - de Jurerê

Canasvieiras Argentina e afamada Joaquina

Vi por suas belezas descortinado o paraíso

Em terra humana que gravada em mim está

Sob limpo céu azul sequência de camarões

 

Na volta a Minas Gerais a Curvelo ganho

Na terra sem preço que mora meu bem

Ver em mim pelo costume santo e sacro

A prevista trajetória de jovens e jovens

Num terreno quente e histórico de estações

Cravada no sertão de estradas e poeiras

 

Que de lá se vão com sede a Cordisburgo

Para um Miguilim eterno recitar-me enfim

A pura poesia roseana em seu museu

Por todos ali se vê a nostálgica retomada

Daquele que pelas letras recuperou sua terra

Embora pudesse esquecê-la como agem

 

Não contente ao nosso litoral retorno

Viver Vitória esplendidamente urbana e bela

Erguendo-me em pontes abismais e curvas

Que a Vila Velha guiam muito mais praiana

Ao conjunto de ambas refaço meus litorais

Todos com sua única, larga e lauta beleza

 

A Guarapari, quintal de Minas, desço então

Ao lugar transposto e vívido pertencido sou

Com ares da boa e articulada gente mineira

Tanto de sábios quanto de conversadores

Mais marcada por ser minha e por mim refeita

Por tudo de simples e descuidado que ali há



Escrito por William Lima às 18h35
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O TOTAL QUE ÉS TU

Dos remotos sonhos tomaste a vida

Quando em ti sozinho ansiava muito

Muitas noites dias, de choros e sonos

E assim me surges em outubro ledo

 

Seu largo sorriso comoveste a mim

Por su’alva pele desejei rever-te

Não somente a fala mas também a voz

Redundando tudo ao total que és tu

 

Nesse céu divino só enxergo luz

Neste curto braço e nesta boa mão

Só me cabe amar e provar do sonho

 

O passado é triste vez que tu não és

Mas agora os céus nos quiseram a nós

Para amar em Deus e com fé no vir



Escrito por William Lima às 10h50
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Chuva que o temível porta

Pingos da noturna chuva precipitam

Agitadas poças alumbradas por artificial luz

De ruas negras por onde soturnos carros

Passam no silêncio desta urbana noite

 

Dos vários ângulos por que são vistas

Experiências mil rememoram, invocam

Capaz é, portanto, de os rumos modificar

Avivando atos ora mortos ou repetidos

 

Chove, ó larga água do céu fero partida

Cai portando divinos frutos e revoltas

Que a pétrea lida humana em trovões cambie

Que nas rajadas o opaco costume se lave

 

Sacra chuva que a tudo possui precipitada

Terras, mares e vivos seres em razão

Ó tolo coração humano que sucumbe

A ti, entidade viva cujo vigor traz temor

 

Ó tempestade infalível anunciante crível

Para os deste mundo donos e não donos

Ao menos a ti devem a ajuizada precaução

De descrer na força dos contratos terrenos



Escrito por William Lima às 10h39
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Longe de seu habitat

Para si, para o justo e para o éter

Ajustado e imaculado está

Ali, as suas sãs e mais nobres

Razões, nulas à infértil terra

 

Move-se desde o leito aos ínferos

Ruma à absurda perda e desperdício

Dos frutos nobres que porta repisam

As cegas e longínquas criaturas

 

Para dentro de si tristeza guarda

Por estar tão longe requer dos seus

O triunfal abraço dos que sabem

 

Por entrar tão longe em alvo erra

Em si só acerta por na cruz ter fé

Fé-lo Deus, porém, que ali tivesse

 



Escrito por William Lima às 00h22
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Respectus, respicio

Respectus - do lat. olhar para trás, volver os olhos para aquilo que está atrás, em sentido lato respeito quer dizer ter consideração, ter estima, não pelo que está aqui diante dos olhos, mas para aquilo que não está. Respectus pode ser também sonhar, imaginar, como se o respeito pudesse ter asas e voasse da consideração para o amplo futuro. Respeito é, enfim, uma disciplina, um domínio, uma faculdade superior de quem coincide consigo mesmo o tempo inteiro, não apenas no presente, mas também no futuro e no passado. Respeito é para poucos, volver o olhar para o que está atrás, somente os nobres de espírito.



Escrito por William Lima às 12h36
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Autônoma Isabel

Isabel caminhava lentamente pela rua dos despachos inacabados e operantes, sabia que por ali sempre passava, conhecia de cor seus caminhos, mas aquela rua de sua infância remontava aos sofrimentos juvenis de dependência. Continuamente amarga fora, enfim, aquela rua. Amarga e teatral. Sanguínea e pulsante. No entanto, sem perceber o seu próprio presente, saboreara o espanto da percepção. Tudo realmente mudara dentro de si mesma, pois os caminhos da dependência se findaram e lembrara sorrindo o que era antes e que é hoje, apesar da constante paisagem amarga que a rua ora lhe oferecia.

 

Isabel sondara a si mesma. Na verdade, muito tempo havia passado, muitas velas consumidas, mas somente ali naquela hora é que a percepção daquele declínio lhe chegara, como convém e como ventam os ventos. Enfim, os ventos sempre trazem a página virada, pois estes levam consigo ares de cá para lá, surpresas e sorrisos memorantes, mas significam a coisa finda e muito mais lembrança. Na rua dos despachos as crises vieram, mas, por fim, neste dia 21 de março de 2009, ela se iniciara consigo a retrospecção de que, finalmente, a DOR passara.

 

Isabel chegara à autonomia, mas as amarguradas jornadas dos despachos infinitos fizeram parte de sua atual ATITUDE. Ao fim, atitude é tudo. Não devia papéis, tampouco os interpretava. Ao Criador, coube cuidar de sua independência infinita. Assim, os risos hoje correm muito mais que as lágrimas, ao que nem lágrimas ali suspeitadas havia. Isabel hoje sente com prioridade seus sentimentos, experimenta totalmente suas conquistas. Enfim, sequer ouve opiniões alheias, vez que suas conquistas ultrapassam as inconveniências circunscritas. Os domínios alheios de uma rua cheia de tristes lembranças só suscitam em sua alma a paralisia. Ela está pasma, em choque, estupidificada, pois hoje como em flash-back tivera a sórdida sensação de dor passada. Contudo, muito tênue logo fora dando lugar à alegria e ciente de que todas as amarras foram vencidas: homens maltrapilhos, sujos e porcos. Leões famintos e ratazanas coloridas. Todos finalmente rumados ao abismo de sua superação. Os trastes acabaram por fim por honrá-la em seu âmago. Os vermes trouxeram enfim ao seu toque feminino mais feminilidade, os microscópicos seres horrendos, o triunfo de esquecer para lembrar.

 

Assim, notara em si a superação infinita, a emoção em um sorriso simples, sincero e consigo-só. Valeu ter caminhado e não ter perdido a fé terrena em si mesma. Ela é simplesmente linda e verdadeira. Isabel deixara aquele canto e fora ao que lhe tem de futuro. O futuro lhe cobra tão poucas coisas! E, por isso mesmo, doce para ser vivido sem desespero, sem opiniões, sem tropeços. O futuro será carente de idiotas e de idiotices. Ao fim verá a luz da mortalidade brilhar como brilha a luz que é infinita. A beleza sempre vence e a independência: obra dos deuses.



Escrito por William Lima às 21h07
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Litterarum Paupertas

Ao poeta cabe dosar suas emoções. Ao poeta, apenas a técnica. A técnica é o significante e a referência. Palavras bem escolhidas e combinadas e referências culturais sólidas. Aqui, temos o contrário, a pobreza das letras. O deterioramento das letras se deve à falta de atenção do poeta. Houve uma intenção não poética, houve um destempero e um descontrole emotivo. O poeta emociona pela técnica, as letras por ele pintadas são fruto do trabalho da racionalidade e de uma estética firmemente prevista em seu ideal e mundo. O descontrole e o desacerto emotivo deste poeta não é capaz de produzir e de engendrar ricas letras, mas pobres e de tolas referências.

 

Primeiro, o significante deve significar mais do que o significado, deve extrapolar a órbita que lhe cabe, tanto na leitura do poeta quanto na leitura do leitor. Ele deve ser ávido, ele deve invadir à imaginação. Ao significante, deve pairar o infinito das estrelas, o infinito da interpretação e a relatividade das leituras, só assim temos a boa obra. Ao poeta, cabe frear o ímpeto amoroso e suas moléstias pessoas; cabe ao poeta, o abandono dos tolos e das tolas questões. Para ele, o sentimento é um dispositivo que se converte na técnica do brilho das palavras. Para ele, amores mal resolvidos são matéria-prima de boas obras, como se fossem harmoniosas notas e tons ao músico.

 

Após, temos as referências culturais. Não se trata de recursos nu e cru das citações, mas de sutis referências que embelezem as letras. Nada como se encontrar com os grandes nomes da literatura em pensamentos, mas nada mais brilhante do que encontrá-los nas letras. O prazer do texto se encontra tanto no encontro daquele significante prazeroso quanto na conhecida referência. Temos prazer em ler algo que já lemos referido nas letras; portanto, uma sabedoria e entendimento compartilhados com o poeta.

 

Faz parte de grandes escolas literárias o recurso de uma citação clássica; faz parte de grandes escolas literárias o recurso a temas universais. Ora, a universalidade literária é a particularidade compartilhada em letras. Não cabe então ao poeta rumar à corrente das desavenças amorosas, dos casos chulos e rasos, cabe ao poeta o prazer de ser superior, o prazer de recorrer ao seu arcabouço literário a fim de construir obras e trechos razoáveis, senão a outros, mas para si mesmo.

 

Enfim, o enriquecimento vocabular da língua portuguesa ocorreu graças ao apego dos clássicos do renascimento ao latim e também à concepção grega de arte. A riqueza de alguns termos só foi possível por isso, pois pela corrente hereditária, muitos termos gratos à língua seriam esquecidos. Assim, cabe ao poeta enriquecer sua língua com referências clássicas ou com significantes clássicos e pesados, não há espaço para pessoas em sua obra, trata-se de um momento seu com a arte, de um momento seu com espaço imaginário das letras, caso contrário rumamos ao empobrecimento das letras.

 



Escrito por William Lima às 10h24
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Humilhação

A palavra humilhação denota passar por uma situação em que a sua dignidade é destruída a partir de uma atitude ou um julgamento vindo de um ente presunçoso. Não há outra situação de dor superior a essa. Quando uma pessoa “carente” é julgada, qualquer ato que daí sucede não possui o mínimo de força. O poder de destruição de uma humilhação é superior a infinitos gestos e a milhares de palavras soltas. De modo que a atitude de quem sofre a afronta é autorizada. O humilhado está autorizado a tudo, inclusive a matar, naturalmente que respondendo por seu ato em penitenciária. O sofrimento de ser subjugado, subestimado torna uma dócil pessoa em um monstro, transforma amores em indiferença.

Contudo, o poder de transformação do tempo socorre o humilhado. Assim, um sábio será humilhado e saberá dosar sua superação. Quando esta pessoa está restrita ao Prado ou à Igreja Batista, essa pessoa poderá então ir à praia. Quando a pessoa humilhada não se locomove senão com as pernas, o tempo lhe dará rodas. Quando o ser ofendido e destruído em seu imo peito se ver restrito a opiniões de quem mal consegue se graduar, o ofendido pode simplesmente dizer adeus a todos aqueles que não possuem instrução. O humilhado pode até matar, mas o sábio mata com gestos e atos potencializados, porém nada paga a dor da humilhação.

Ser subestimado, ser comparado, rirem de você. Isto não é nada, pois existe, de fato, um sábio que sempre surpreende, um homem que sempre ignora a dor, um homem que, mesmo autorizado a tudo, prefere assumir toda a culpa, para finalmente ser chamado de “filho da puta”. As mães não merecem isso. Se um casal chama esse homem de “filho da puta” isso quer dizer que a pessoa deve assumir isso, mas deve avisar que a mulher é chifruda, porque eu sei. Grandes amigos falsos contam tudo, inclusive que traem suas namoradas. Mesmo assim aceito ser chamado de filho da puta por este casal de aparências.

Assumo, assim, todos os erros. Assumo porque eu isento a todos de se sentirem culpados. Afinal, quero que vivam a mentira, mas prefiro a verdade que me endireita. Acredito que meus atos são todos meus, não ajo pelos outros. Toda humilhação, em todo caso, só existe porque existe uma submissão. Para mim, é muito fácil, basta não se submeter. Vou apostar em mim para não ser humilhado. Afinal, há duas semanas não enxergo.

Tudo é uma questão médica, suponhamos que – outra humilhação – um paralítico deixasse sua cadeira de rodas por um tempo para ser higienizada, mas mesmo após a higienização não lhe fosse devolvida nunca mais essa cadeira, mesmo que ele pedisse insistentemente, finalmente ele teria de comprar uma nova, mesmo não tendo condições imediatas. E se isto acontecesse com aparelhos dentários, auditivos, enfim, se seus óculos fossem tomados de ti.

Enfim, eu sou um canalha, mas batalho bastante numa escola “punk” demais. Ninguém tem o direito de alterar minha competência. “Punk” são os seus chifres.



Escrito por William Lima às 12h59
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Marcas da vida

Existe a expressão facial penetrante e cortante, existe o olhar de quem já viveu muitos janeiros, existem, na face, as marcas da vida. Pessoas de vivência têm em si o estado mágico da descoberta, o estado triunfante do saber. Por isso, pessoas com olhar e "visão" são realmente superiores, pois descobriram há algum tempo que a vida é um jogo. Não um jogo de erros e acertos, mas um jogo de tendências. De fato, o homem visivelmente marcado na face por traços de vivência é, por decisão divina, um sábio. 

A sabedoria, no entanto, desta face não se restringe à paralisia de um momento zen, mas à ação motora e potencializada de driblar a vida como quem dissimula às pessoas. Mas o que possui as marcas da vivência não está dissimulando, ele está apenas vivendo com seu aprendizado, pois, por ser mais lúcido, possui poderes "sobrenaturais".

Nesse sentido, grandes nomes da história são pessoas buriladas pela vida, trata-se de pessoas que, pela face, sabemos quem são. Suas marcas revelam uma dor vencida, uma guerra ganha e seu estado de graça algo imbatível. Um grande líder é formado pelo número de enfrentamentos por que passou sozinho. Um homem marcado é um homem que foi temporariamente esquecido, olvidado.

A solidão prepara homens para a vida, o desprezo à reação. Pessoas que foram massacradas pela vida, ainda que não reajam são entes superiores em especial. Não há clivagem, não há recursos para os detentores do discurso uno e monofônico. A clivagem é minha, a face se subdivide em fendas infinitas de acordo com a experiência, por sua vez o discurso segue o mesmíssimo caminho. O monofônico revela a falta de experiências reais com a vida, só as marcas produzem seres superiores.

Aliada à superioridade das marcas que denunciam a experiência deve estar a ação máxima. Essa ação máxima pode ser vista através dos seguintes atributos: empreendedorismo, engenhosidade, inteligência ativa, diálogo neutro, oratória, conhecimento, psicologia, mediunidade, transparência, evidência, comunicabilidade, racionalidade em circuito intenso com a emoção, vez que o ser vivo só executa racionalmente, mas mantém o motor ligado pela veia das emoções, e outros atributos gerados na cadeia de crescimento.

Ora, não prego nada, vejo tudo. As faces dizem muito e os discursos apenas acompanham. O fato de me aliar a alguém define que a face em questão é semelhante a minha face. Que somos dotados de uma força que nos une. É necessário apenas converter os pólos.  



Escrito por William Lima às 14h05
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